Relações entre Dilma e Temer e entre PT e PMDB sempre foram de desconfiança

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“Sempre tive ciência da absoluta desconfiança da senhora e do seu entorno em relação a mim e ao PMDB”, disse Michel Temer em sua carta de desabafo à presidente Dilma Rousseff enviada na última segunda-feira (7), que aumentou a crise política que assola o governo federal. De acordo com cientistas políticos ouvidos pelo UOL, essa desconfiança esteve presente e pautou a relação entre presidente e vice, e seus respectivos partidos, desde o início da formação da base do governo Dilma.

Sem funções muito claras na Constituição, além da substituição do presidente da República quando de sua ausência, os vice-presidentes sempre tiveram uma importante função política, seja angariando votos de determinados setores ou conseguindo mais tempo de televisão no horário eleitoral, seja ajudando na articulação com grupos distantes do presidente. No caso do governo atual, essa articulação foi comprometida seriamente com a carta de Temer.

“O vice tem o papel de uma negociação política e pode ser uma importante articulação, construindo a relação entre o partido aliado com o partido do governo. Nada disso está escrito, mas faz parte do jogo político”, diz Maria Hermínia Tavares de Almeida, cientista política do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento).

“Dado que o PMDB é complicado, de muitas facções, teria sido prudente que a presidente envolvesse o vice nos processos de negociação mais importantes. Mas o PT teve uma relação de óbvia desconfiança com o PMDB e parece ‘jogar mais fechado’ [em relação a outros partidos]“, complementa a professora, que afirma que Temer teve um papel importante ao trazer o PMDB para a coalizão petista nas eleições de 2010.

De acordo com o cientista político Alberto Carlos Almeida, o fato de o PT não dar espaço para os aliados explicitou a relação de desconfiança entre os dois. Mas, segundo ele, essa situação não é nova. “Historicamente, todos têm desconfiança com o PMDB”, diz, citando os antecessores de Dilma, Lula e Fernando Henrique Cardoso, como presidentes que também se relacionaram com os peemedebistas de forma cautelosa.

Mesmo com a reunião de reconciliação ocorrida na quarta-feira (9) entre Dilma e Temer, seria a carta o início do rompimento entre o PT e o PMDB ou a situação ainda é contornável?

“Não pode, de forma alguma, haver desavença pública. Elas existem, mas jamais podem vir a público. O que ocorreu é uma quebra irreversível. Acho que não tem mais volta. Eles se reuniram somente para salvar as aparências”, afirma o cientista político Paulo César Nascimento, professor da UnB (Universidade de Brasília).

Alberto Carlos Almeida tem opinião diferente: “Com o PMDB, nada é irreversível. Pode ser ruim, mas nada que signifique um rompimento total. O ‘rompimento’, na verdade, é uma forma de barganhar”, afirma.

Fonte: Uol

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